quarta-feira, 25 de março de 2015

"Efeitos da poluição do ar na função respiratória de escolares, Rio de Janeiro, RJ "

INTRODUÇÃO

"Efeitos deletérios da poluição do ar sobre a saúde humana têm sido observados tanto na mortalidade geral e por doenças respiratórias e cardiovasculares como na morbidade incluindo aumentos em sintomas respiratórios e diminuições nas funções pulmonares.5

No Brasil, estudos de séries temporais avaliaram os impactos dos poluentes sobre a saúde da população.8,17,18Estudo realizado nas duas maiores cidades brasileiras, Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP),8 identificou que a poluição atmosférica estava associada tanto à saúde respiratória como à cardiovascular. O número de internações devido a doenças respiratórias em crianças aumentou em conseqüência de aumentos na poluição; de 1,8% na cidade do Rio de Janeiro e de 6,7% em São Paulo para incrementos de 10µg/m3 de PM10 (material particulado com diâmetro até 10 micrômetros); ainda em São Paulo, 6,7% para incrementos de 10µg/m3 de SO2 (dióxido de enxofre) e 1,7% para incrementos de 1 ppm (partícula por milhão) de CO (monóxido de carbono). A poluição do ar também se mostrou associada à prevalência de asma em crianças em estudo realizado nos municípios de Duque de Caxias e Seropédica (RJ).15

Entre os estudos internacionais, uma investigação em área rural da Holanda verificou queda da função pulmonar durante duas semanas após um episódio de poluição com aumento de SO2 e material particulado envolvendo 1000 crianças entre seis e 12 anos.2 Na Áustria, o acompanhamento de 975 crianças por três anos também observou redução da função pulmonar associada a aumento nos níveis dos poluentes PM10, SO2, NO2 (dióxido de nitrogênio) e O3 (ozônio).11 Ainda, esses estudos indicam que, entre crianças asmáticas, o impacto da poluição do ar expresso em absenteísmo na escola e aumento de internações hospitalares parece ser mais grave naquelas com menor nível socioeconômico.9"

RESULTADOS

 Mesmo dentro de níveis aceitáveis na maior parte do período, a poluição atmosférica, principalmente o PM10 e o NO2, esteve associada à diminuição da função respiratória de crianças residentes no Rio de Janeiro.


DISCUSSÃO

Neste estudo de painel, a poluição atmosférica esteve associada à diminuição da função respiratória de escolares em curto prazo. Especificamente, aumentos nos níveis de dois poluentes PM10 e o NO2 associaram-se a diminuições na função respiratória. Por outro lado, os níveis dos poluentes CO, SO2 e O3 não estiveram associados a diminuições da função respiratória dos escolares.
Efeitos semelhantes ao observado no presente estudo foram obtidos em estudos de painéis em outras regiões.22 Uma revisão sistemática de estudos com crianças para investigar efeitos da poluição atmosférica concluiu segundo um modelo clássico de meta-análise que, para um aumento de 10 µg/m³ nos níveis de PM10, os níveis de pico de fluxo das crianças diminuíram em média 0,012 l/min (IC95% -0,017; -0,008).22 Ao considerar um modelo de coeficientes aleatórios, o efeito médio foi de - 0,033 l/min (IC95% - 0,047; - 0,019), um efeito muito semelhante ao observado no presente estudo de painel de - 0,32 l/min (IC 95% - 0,52; - 0,12) para o mesmo aumento de PM10 e uma defasagem de dois dias.

Em 2001, estudo com crianças entre sete e nove anos, na cidade de São Paulo (SP) observou associações com diversos poluentes.4 Apesar de não ter isolado um único poluente como a causa principal do efeito deletério na saúde das crianças, para uma variação interquartil na concentraçäo do PM10, houve um decréscimo de 1,05% no pico de fluxo expiratório, resultado semelhante ao encontrado no presente estudo. Outros estudos internacionais têm apresentado correlação entre o aumento de 10 µg/m³ de PM10 e a redução de mais de 10% no pico de fluxo para o mesmo dia.14,15,16

O desenvolvimento de outros estudos sobre o impacto dos poluentes do ar sobre a saúde da população deve ser estimulado no sentido de contribuir com medidas adequadas e locais para controle da poluição do ar.

(Efectos de la polución del aire en la función respiratoria de escolares, Rio de Janeiro, Sureste de Brasil/Hermano Albuquerque de CastroI; Márcia Faria da CunhaII; Gulnar Azevedo e Silva MendonçaIII, IV; Washington Leite JungerIII; Joana Cunha-CruzV; Antonio Ponce de LeonIII)